Nº 0 Filosofia Medieval 2010/01
Número 0 da Revista Estudos Hum(e)anos 2010/01
- A autoridade política no pensamento medieval ocidental por Dawisson Belém Lopes
- A abadessa infiel e o cavaleiro apóstata por Patrícia Rangel
- A história como ontologia do mundo por Cleber Ranieri Ribas de Almeida
- Ockham, Baskerville e a desdivinização do logos por Pedro Luiz Lima
- A virada cristã por Rafael Assumpção de Abreu
- O nominalismo em Hobbes por Bernardo Bianchi Barata Ribeiro
- Da instituição do temor e do tremor por Cesar Kiraly
Editorial
O Laboratório de Estudos Hum(e)anos dedicou um semestre acadêmico para a investigação do pensamento medieval. No segundo semestre de 2007 pesquisadores de Ciência Política e Sociologia tiveram diante dos olhos as colunas bilíngües das traduções da obra Tomás de Aquino, tiveram na imaginação as agruras do pathos de Agostinho e no entendimento as regras da prova de entidades metafísicas de Anselmo. Distantes do triste argumento da atualidade os pesquisadores investiram na vivacidade do pensamento medieval. Por certo, espíritos, por assim dizer, treinados para a política, e para a sociabilidade, insistem em ver a invenção da modernidade pressuposta nesses autores.
Mas nem sempre os pesquisadores do L(E)H foram consensuais na possível modernidade do pensamento medieval ou na provável intensidade medieval do pensamento moderno. Esse dissenso criativo pode ser lido nas páginas da Revista Estudos Hum(e)anos. A autoridade e o modo de pensar pela infidelidade, a relação entre a crença e o temor, a densidade ontológica do logos, bem como, a dimensão da lógica do nome são questões vivas nos ensaios de nosso número de nascimento. Essas questões foram abordadas, outrossim, no Colóquio de Medieval, promovido, em Agosto no IUPERJ, pelo L(E)H.
O primeiro número da R(E)H é numerado com Zero. Com efeito, o pitagorismo conhecia o encantamento dos números, mas não são os pitagóricos que inventam o Zero, mas a imaginação lúdica dos indianos. Com os romanos aprendemos a dizimar (matar de dez em dez homens), com os egípcios aprendemos a encarcerar um milhão de homens (o hieróglifo que representa o numeral um milhão é a imagem de um homem de joelhos em súplica, apenas ao Faraó era dado utilizar essa representação, porque apenas ele poderia ter um milhão de coisas), mas com os árabes aprendemos o Zero inventado pelos indianos.
A filosofia grega também nos é ensinada pelos árabes. Mas como os árabes antes de nos ensinar a filosofia aprenderam o uso matemático e lúdico do Zero; a filosofia grega aprendida pelos medievais é a filosofia grega mais o Zero. O pensamento judaico também aprende com a filosofia grega mais o Zero. Maimônides, tratado por Tomás como o Egípcio, escreve o Guia dos Perplexos para enfrentar a questão das grandezas negativas, aquelas que são desde o Zero, ou antes dele. A R(E)H oferece este número Zero: números das grandezas negativas e das multiplicidades infinitas. Porque ainda que não se deseje uma política do pensamento medieval, o atravessamento da sociabilidade produz um pensamento político cujas questões começam no mundo medieval. O vocabulário subjetivo da intencionalidade, a força pregnante do logos e a crença provam esse começo medieval de grandezas.
Os Editores
