Editorial 2010/01
Dedicamos um semestre acadêmico ao pensamento medieval. Tivemos diante dos olhos as colunas bilíngües das traduções da obra de Tomás de Aquino, a imaginação tomada pelas agruras do pathos de Agostinho e o entendimento ocupado pelas regras da prova de entidades metafísicas de Anselmo. Podemos dizer que foi um bom semestre.
O pitagorismo conhecia o encantamento dos números, mas não são os pitagóricos que inventam o Zero, mas a imaginação lúdica dos indianos. Com os romanos aprendemos a dizimar (matar de dez em dez homens), com os egípcios aprendemos a encarcerar um milhão de homens – o hieróglifo que representa o numeral um milhão é a imagem de um homem de joelhos em súplica, apenas ao Faraó era dado utilizar essa representação, porque apenas ele poderia ter um milhão de coisas -, mas apenas com os árabes aprendemos o Zero inventado pelos indianos.
A filosofia grega também nos é ensinada pelos árabes. Mas como os árabes antes de nos ensinar a filosofia aprenderam o uso matemático e lúdico do Zero; a filosofia grega aprendida pelos medievais é a filosofia grega mais o Zero. O pensamento judaico também aprende com a filosofia grega mais o Zero. Maimônides, tratado por Tomás como o Egípcio, escreve o Guia dos Perplexos para enfrentar a questão das grandezas negativas, aquelas que são desde o Zero, ou antes dele.
Oferecemos este número Zero: números das grandezas negativas e das multiplicidades infinitas. Porque ainda que não se deseje uma política do pensamento medieval, o atravessamento da sociabilidade produz um pensamento político cujas questões começam no mundo medieval. O vocabulário subjetivo da intencionalidade, a força pregnante do logos e as problemáticas da crença provam esse começo medieval de grandezas.
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